PAES 2027: como estudar as obras literárias da UEMA sem depender apenas de resumos

Analisar a memória em Graciliano Ramos, o cotidiano nas crônicas de Lucy Teixeira e os recursos poéticos de Cora Coralina ajuda a transformar a leitura em uma ferramenta de preparação para o vestibular.
A preparação para o Processo Seletivo de Acesso à Educação Superior (PAES) 2027, da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), exige atenção às obras literárias obrigatórias. Mais do que memorizar personagens, acontecimentos e temas, o candidato precisa compreender como cada autora ou autor constrói o texto e quais sentidos podem ser identificados a partir das escolhas narrativas e linguísticas.
A lista oficial reúne Crônicas de Lucy Teixeira, com organização de Ceres Costa Fernandes; Infância, de Graciliano Ramos; e Meu Livro de Cordel, de Cora Coralina. Como as obras apresentam gêneros e estruturas diferentes, o estudo deve considerar as particularidades de cada uma. Os resumos podem auxiliar na revisão, mas a leitura integral permite identificar detalhes, ambiguidades e recursos expressivos que uma síntese nem sempre contempla.
O que analisar em cada obra
Crônicas de Lucy Teixeira: o cotidiano como matéria literária
A coletânea Crônicas de Lucy Teixeira, publicada pela Academia Maranhense de Letras em 2024, reúne textos de Lucy Teixeira organizados por Ceres Costa Fernandes. As crônicas foram publicadas originalmente no jornal O Imparcial, e a coletânea recupera registros do cotidiano de São Luís, especialmente do período de 1947.
Na leitura, vale observar como situações aparentemente comuns podem adquirir significado literário. Em textos como O Canto da Chuva, o candidato pode investigar a construção de imagens, a exploração de sensações e a maneira como a descrição de uma cena se relaciona com lembranças e reflexões. Em outras crônicas, o cotidiano urbano, o trabalho, os espaços públicos e a vida cultural podem ajudar a compreender a cidade retratada e as relações entre seus habitantes.
O estudo deve partir de cada texto, sem pressupor que toda a coletânea apresenta o mesmo tom ou a mesma estrutura. Uma crônica pode se aproximar da reflexão poética; outra pode privilegiar um acontecimento cotidiano ou um comentário sobre a vida social.
Durante a leitura, pergunte:
● Qual acontecimento ou observação dá origem à crônica?
● Como a autora transforma esse episódio em reflexão?
● Que detalhes do cotidiano de São Luís ajudam a reconstruir o contexto da época?
● O texto privilegia a descrição, a narrativa, o comentário ou combina diferentes formas de expressão?
Essas perguntas ajudam a identificar como o gênero articula acontecimentos concretos e interpretação subjetiva, sem reduzir a leitura a uma lista de assuntos.
Infância, de Graciliano Ramos: memória, narrador e reconstrução do passado
Em Infância, publicado originalmente em 1945, Graciliano Ramos reconstrói experiências de sua infância por meio de uma narrativa memorialística. O livro não deve ser lido como uma reprodução neutra dos acontecimentos: as lembranças são organizadas e narradas a partir de uma perspectiva posterior, marcada pela experiência do adulto que revisita o passado.
Essa diferença entre o menino que vive os episódios e o narrador que os recorda é um dos pontos mais produtivos para a análise. A criança percebe o mundo a partir de sua compreensão limitada das relações familiares e sociais. Já a voz adulta pode reinterpretar essas experiências, revelar contradições e evidenciar aspectos que não eram compreendidos naquele momento.
O candidato deve observar como essa distância temporal interfere na apresentação das personagens, na descrição dos ambientes e na interpretação dos acontecimentos. Também vale analisar a linguagem concisa de Graciliano Ramos, a escolha de detalhes e a maneira como o narrador apresenta relações de autoridade, medo, educação e desigualdade.
Durante a leitura, pergunte:
● O episódio é apresentado pela percepção da criança ou pela interpretação posterior do adulto?
● O narrador demonstra compreender hoje algo que não entendia quando era menino?
● Como as descrições e as escolhas de palavras influenciam a maneira como o leitor percebe as personagens?
● Que críticas às relações familiares, à educação ou à sociedade podem ser identificadas no episódio? Quais elementos do texto sustentam essa interpretação?
Para aprofundar o estudo, escolha episódios específicos e compare o que a criança parece compreender com o que o narrador adulto permite ao leitor perceber. Esse exercício ajuda a reconhecer a memória como elemento de construção da narrativa, e não apenas como registro de fatos passados.
Meu Livro de Cordel, de Cora Coralina: imagens, voz poética e cotidiano
Em Meu Livro de Cordel, Cora Coralina aproxima a poesia de experiências cotidianas, memórias e referências culturais. A própria relação do título com a tradição dos cantadores populares oferece um ponto de partida para investigar a voz poética e as formas de diálogo com a cultura popular.
A análise deve considerar os poemas individualmente. Em Das Pedras, por exemplo, o candidato pode investigar a transformação de uma imagem concreta em símbolo de obstáculos e criação poética. O importante é observar como essa imagem se desenvolve ao longo do texto e como se relaciona com a voz que fala no poema.
Em Cantoria, vale observar a relação entre o ato de cantar e a representação de espaços, objetos e pessoas do cotidiano. Já em Este Relógio, a passagem do tempo pode ser estudada a partir da relação entre o objeto e as diferentes etapas da vida familiar.
Esses exemplos mostram por que não basta classificar a obra inteira como literatura popular ou atribuir a todos os poemas as mesmas características. Cada composição precisa ser analisada em sua organização, seu vocabulário e seus efeitos de sentido.
Durante a leitura, pergunte:
● Quem fala no poema e a partir de qual experiência?
● Que imagens ou símbolos estruturam o texto?
● Como o ritmo, as repetições, os versos e a escolha vocabular contribuem para a interpretação?
● De que maneira o cotidiano ou a memória se transforma em matéria poética?
Atenção à edição utilizada: a UEMA informa o título e a autoria na lista oficial, mas não determina ali uma edição específica. Como Meu Livro de Cordel teve diferentes edições, o candidato deve conferir os poemas presentes no exemplar indicado para seu estudo antes de utilizar exemplos ou listas de textos.
Como comparar as obras sem forçar semelhanças
A comparação entre os livros funciona melhor quando começa pela leitura individual e utiliza perguntas comuns para identificar aproximações e diferenças. Os textos não precisam apresentar o mesmo tema ou chegar às mesmas conclusões para serem comparados.
Memória e passado
● Em Infância, como a distância entre o acontecimento e a lembrança interfere na narrativa?
● Nas crônicas de Lucy Teixeira, como a descrição de espaços e acontecimentos recupera aspectos de uma época?
● Nos poemas de Cora Coralina, como as lembranças e as referências ao cotidiano são transformadas em linguagem poética?
Experiência individual e sociedade
● Como cada obra representa a relação entre o indivíduo e o ambiente em que vive?
● Quais personagens, vozes ou experiências recebem destaque?
● Que diferenças existem entre a crítica social construída por uma narrativa memorialística, uma crônica e um poema?
Linguagem e construção de sentidos
● Como cada gênero organiza as informações e conduz a interpretação?
● O narrador de Infância, a voz das crônicas e a voz poética produzem efeitos semelhantes ou diferentes?
● Que recursos linguísticos são mais importantes em cada trecho analisado?
Ao responder, o candidato deve selecionar passagens que sustentem suas observações. A comparação deixa de ser uma associação genérica de temas e passa a demonstrar como cada texto constrói seus próprios sentidos.
Como transformar a leitura em estudo
Para aproveitar melhor o tempo, organize um caderno de leitura dividido em três partes, uma para cada obra. Em cada registro, anote o título do texto ou episódio, o tema identificado, os recursos de linguagem observados e uma pergunta que ainda precisa ser respondida.
Depois, escolha trechos para análise detalhada. Em Infância, compare as perspectivas da criança e do adulto; nas crônicas, identifique a relação entre o acontecimento cotidiano e a reflexão construída; nos poemas de Cora Coralina, examine a função das imagens, do ritmo e da voz poética.
A gramática pode entrar nesse processo como ferramenta de interpretação. Ao observar a pontuação, a sintaxe, os tempos verbais ou as figuras de linguagem, procure explicar como esses elementos influenciam o sentido do trecho, em vez de apenas classificá-los.
Por fim, resolva questões de provas anteriores e retorne às obras sempre que encontrar uma dificuldade. Os exercícios ajudam a identificar lacunas, enquanto a releitura permite compreender melhor os detalhes que passaram despercebidos.
Onde consultar as informações oficiais
A lista de obras obrigatórias e as regras do processo seletivo devem ser consultadas nos canais da universidade:
● Lista oficial de obras literárias do PAES 2027 — UEMA
● Edital n.º 158/2026-GR/UEMA — PAES 2027
A lista oficial confirma os títulos exigidos, enquanto o edital apresenta as regras do processo seletivo. Consultar esses documentos ajuda a manter a preparação alinhada às orientações da UEMA.
Leitura integral e análise caminham juntas
Estudar as obras obrigatórias exige atenção tanto ao conteúdo quanto à forma. Compreender a perspectiva do narrador em Infância, investigar a relação entre cotidiano e reflexão nas crônicas de Lucy Teixeira e analisar a construção das imagens poéticas de Cora Coralina são maneiras de desenvolver uma leitura mais aprofundada.
Os resumos podem ajudar a retomar informações, mas não substituem a análise dos textos. Para o PAES 2027, a estratégia mais consistente é ler, formular perguntas, observar os recursos literários e fundamentar as interpretações nas próprias obras.